quarta-feira, 17 de agosto de 2011

OS SUMÉRIOS E A

Roberto Ribeiro Paterlini

Introdução

Antigas lendas guardam a história dos sumérios, seu aparecimento na região mesopotâmica, o desenvolvimento de sua civilização e seu desaparecimento.

Lê-se que, em tempos idos, dos quais esta nossa civilização tem escassa memória, um grande grupo de homens e mulheres deixou a Atlântida, antecipando-se ao cataclisma que fez sucumbir o continente perdido. Este grupo empreendeu longa jornada, até atingir uma belíssima região, situada entre dois grandes rios, onde se estabeleceram.

Seus descendentes, chamados sumérios, fundaram inúmeras cidades, entre elas a célebre Ur, centro científico e espiritual. Seus sábios desenvolveram importantes conhecimentos. Eram exímios na Arte de Curar mediante o uso de ervas medicinais e pedras preciosas. Possuiam profundos conhecimentos astronômicos, e investigaram as propriedades dos números, tornando-se os maiores matemáticos dos tempos antigos. Seu sistema cosmogônico denotava alta sensibilidade no entendimento das relações entre as forças do universo. No Templo dos Quatro Guardiães, na cidade de Tizgar, o visitante podia ler a inscrição: As forças da Terra e o fogo do Sol unem-se, atuando em perfeita harmonia! Cumprem a lei do equilíbrio!

Os sumérios viveram pacificamente, até que uma sombra se estendeu sobre a região. Os sábios compreenderam que era tempo de partir. Desde então a capital da Suméria passou a se chamar Bab-I-Lu, e os povos daquela região passaram a se chamar babilônios.

O aparecimento de $\sqrt 2$
Uma das características mais relevantes da matemática suméria era o uso do sistema de numeração posicional. Isto possibilitava o cálculo do valor numérico de grandezas geométricas com uma precisão admirável para a época. Um exemplo notável pode ser visto em um tablete sumeriano da Yale Babylonian Collection, catalogado sob a sigla YBC7289.

Tablete sumério YBC7289, da Yale Babylonian Collection.

Nele vemos representado um quadrado, suas duas diagonais e três números:

a=30
b=1,24,51,10
c=42,25,35

escritos no sistema sexagesimal sumeriano. Nessa notação os algarismos do sistema sexagesimal são indicados por 0, 1, 2, ..., 9, 10, 11, 12, ...,59, e a vírgula separa as casas.

Desenho esquemático do tablete sumério YBC7289, mostrando um quadrado, suas duas diagonais, e três números sexagesimais, um sendo o valor do lado do quadrado, outro uma aproximação do valor de $\sqrt 2$, e o terceiro uma aproximação do valor de sua diagonal.

Calculando na base sexagesimal temos

portanto $c=a\cdot b$.

Por outro lado, interpretando na figura acima $c$ como o valor da diagonal do quadrado de lado $a$, temos, em virtude do Teorema de Pitágoras,

\begin{displaymath}c=a\sqrt{2}.\end{displaymath}

Assim, relacionando $c=a\cdot b$ e $c=a\sqrt{2}$, vemos que $b$ deve ser uma aproximação de $\sqrt 2$. Lembrando que os sumérios não tinham notação para separar a parte inteira da parte fracionária na representação escrita dos números, passamos a interpretar $a$, $b$ e $c$ como:

a=(0;30) 60
b=(1;24,51,10)60
c=(0;42,25,35)60
Vemos que

que é próximo de 2.

Resulta a aproximação

\begin{displaymath}\sqrt 2\approx (1;24,51,10)_{60}\end{displaymath}

No sistema decimal isso equivale a

\begin{displaymath}\sqrt 2\approx 1+{24\over 60}+{51\over60^2}+{10\over 60^3}\approx 1,414212963.\end{displaymath}

Comparando com $\sqrt 2\approx 1,414213562\pm 10^{-9}$ vemos que a aproximação calculada pelos sumérios tem erro $<10^{-6}$. Este foi sem dúvida um cálculo notável.
 

Referências
[1] Asger Aaboe, Episódios da História Antiga da Matemática, Sociedade Brasileira de Matemática, 1984.
[2] Roselis Von Sass, A Desconhecida Babilônia, São Paulo, Editora Ordem do Graal na Terra, 1988.

Referências na Internet
[1] Um mapa da Antiga Mesopotâmia pode ser obtido em The Nippur Expedition, do Instituto Oriental da Universidade de Chicago.
[2] Uma introdução à Matemática Mesopotâmica pode ser encontrada na página do MacTutor's History of Mathematics Archive em Babylonian Mathematics.
[3] Confira as páginas de História da Matemática de David Joyce Babylonian e Plimpton 322.
[4] O projeto Uruk apresenta detalhes de tabletas e traduções.

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Publicado em 11/03/2004. Atualizado em 11/03/2004.

Fonte: http://www.dm.ufscar.br/hp/hp527/hp527002/hp527002.html em 17/08/11 às 4:49

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